top of page

Frio e dor crônica: como a fisioterapia pode ajudar?

  • Foto do escritor: Renata Pinto Lacerda
    Renata Pinto Lacerda
  • 1 de jul.
  • 4 min de leitura

O frio provoca dor? Em parte das pessoas com dor crônica, o sistema nervoso pode ficar mais sensível, tornando o corpo mais reativo a estímulos como frio, mudanças de temperatura e até alterações no clima.


Mulher de luvas e cachecol soprando neve nas mãos, com fones e casaco de inverno, em fundo azul desfocado. Pode estar com dor em decorrência do frio.

Muitas pessoas que convivem com dor crônica afirmam que os sintomas pioram nos dias frios ou quando o tempo muda. Essa percepção é tão frequente que costuma gerar dúvidas: seria apenas uma impressão ou existe uma explicação científica para isso?


A resposta é que, para muitas pessoas, essa relação realmente pode existir. No entanto, ela é muito mais complexa do que simplesmente dizer que “o frio causa dor”. Na maioria dos casos, o frio funciona como um fator que aumenta a sensibilidade de um organismo que já apresenta alterações na forma como processa os estímulos dolorosos.


O frio provoca dor?


O frio, por si só, não costuma ser capaz de gerar dor em tecidos saudáveis. Entretanto, ele pode intensificar sintomas em pessoas que já apresentam doenças musculoesqueléticas, alterações neurológicas ou quadros de dor persistente.


Além da redução da temperatura, outros fatores frequentemente associados ao inverno — como menor nível de atividade física, maior rigidez muscular, redução da circulação superficial, permanência prolongada em ambientes fechados e até mudanças no humor — podem contribuir para a piora dos sintomas.


Por isso, dizer que “o frio causa dor” é uma simplificação. Na prática, diversos fatores atuam simultaneamente.


O papel do sistema nervoso


Nas últimas décadas, a ciência da dor demonstrou que a intensidade da dor nem sempre está relacionada apenas ao grau de lesão presente nos tecidos.


Quando a dor permanece por meses ou anos, podem ocorrer mudanças no funcionamento do sistema nervoso, tanto na medula espinhal quanto no cérebro. Esse fenômeno é conhecido como sensibilização central.


Nesse estado, o sistema nervoso torna-se mais responsivo aos estímulos. Situações que anteriormente seriam pouco incômodas podem passar a ser interpretadas como dolorosas ou significativamente mais intensas.


Isso ajuda a explicar por que algumas pessoas relatam:


  • piora da dor durante o frio;

  • maior sensibilidade ao toque;

  • sensação de músculos constantemente tensos;

  • desconforto diante de pequenas mudanças de temperatura;

  • sensação de “corpo travado” ao acordar.


Essas respostas não significam que exista uma nova lesão, mas sim que o sistema nervoso está processando os estímulos de maneira diferente.


O que é a dor nociplástica?


Um conceito relativamente recente na ciência da dor é o de dor nociplástica.


Ela ocorre quando existe uma alteração no processamento da dor pelo sistema nervoso, sem que haja necessariamente uma lesão tecidual importante ou uma compressão nervosa capaz de justificar toda a intensidade dos sintomas.


Condições como a fibromialgia representam o exemplo mais conhecido, mas componentes nociplásticos também podem estar presentes em diversos outros quadros de dor persistente.


Isso não significa que a dor seja “psicológica” ou “imaginária”. Pelo contrário: a dor é absolutamente real. O que muda é o mecanismo responsável por sua manutenção.


Então toda dor que piora no frio é nociplástica?


Não.


Esse é um ponto muito importante.


Diversas condições podem apresentar piora durante períodos frios sem que isso signifique, obrigatoriamente, a presença de dor nociplástica.


Entre elas estão:


  • osteoartrite (artrose);

  • algumas tendinopatias;

  • dores musculares persistentes;

  • neuropatias;

  • doenças reumatológicas;

  • sequelas de lesões antigas.


Em alguns pacientes, coexistem diferentes mecanismos de dor. Uma mesma pessoa pode apresentar alterações estruturais e, ao mesmo tempo, maior sensibilização do sistema nervoso.


Por isso, a avaliação clínica individualizada é fundamental.


O que a ciência diz?


Embora muitas pessoas relatem piora da dor em dias frios ou úmidos, os estudos mostram resultados variados.


As pesquisas sugerem que fatores como temperatura, umidade e pressão atmosférica podem influenciar os sintomas em parte dos indivíduos, mas essa relação não ocorre da mesma forma para todos.


Além disso, fatores emocionais, qualidade do sono, estresse, nível de atividade física e expectativa em relação ao clima também podem modificar a percepção da dor.


Ou seja, o clima pode funcionar como um dos diversos elementos que influenciam a experiência dolorosa, mas dificilmente é o único responsável pelos sintomas.


Frio e dor crônica: como a fisioterapia pode ajudar?


Independentemente da influência do frio, o tratamento da dor crônica deve considerar muito mais do que apenas a região onde o paciente sente dor.


Frio e dor crônica: como a fisioterapia pode ajudar? Uma abordagem baseada em evidências pode incluir:

Fisioterapia para dor crônica e para dor no joelho no frio.
O manejo da dor passa pela educação em dor, exercícios terapêuticos e fisioterapia individualizada.

  • educação em neurociência da dor;

  • exercícios terapêuticos individualizados;

  • fortalecimento muscular progressivo;

  • estratégias para melhora da mobilidade;

  • técnicas para redução da hipersensibilidade;

  • orientação sobre hábitos de sono, atividade física e manejo do estresse.


O objetivo não é apenas aliviar os sintomas momentaneamente, mas melhorar a capacidade do organismo de tolerar cargas e recuperar sua funcionalidade ao longo do tempo.


Conclusão


Se você percebe que sua dor piora no frio, saiba que essa sensação pode ter uma explicação fisiológica. Em muitos casos, ela está relacionada à forma como o sistema nervoso interpreta os estímulos do ambiente, especialmente quando existe uma condição de dor persistente.


Entretanto, isso não significa que toda dor agravada pelo frio seja igual ou tenha a mesma causa. Cada paciente apresenta características próprias e, por isso, um diagnóstico preciso é essencial para definir o tratamento mais adequado.


A boa notícia é que, com uma avaliação individualizada e um programa terapêutico baseado em evidências científicas, é possível reduzir a sensibilidade do sistema nervoso, recuperar a função e melhorar significativamente a qualidade de vida, mesmo para quem convive com dor há muito tempo.


Referências científicas


  1. International Association for the Study of Pain (IASP). Terminology Task Force – Definição de dor e dor nociplástica;

  2. Clifford J. Woolf. Central sensitization: implications for the diagnosis and treatment of pain. Pain. 2011;

  3. K. V. Sluka. Pain Mechanisms and Management for the Physical Therapist. 3ª edição;

  4. Adriaan Louw. Why Do I Hurt? e publicações sobre educação em neurociência da dor;

  5. International Association for the Study of Pain. Classificação dos mecanismos da dor e recomendações sobre dor nociplástica.

Comentários


bottom of page